Empresas compradoras de Bitcoin no Brasil: OranjeBTC estreina na B3
Outubro de 2025 marcou a estreia da OranjeBTC (OBTC3) no pregão da B3 e dá um passo mais à tese das empresas compradoras de Bitcoin no mercado acionário brasileiro. A companhia chega listada por IPO reverso, após adquirir o Cursinho Integraus, da Bioma Educação, por cerca de R$ 15 milhões.
No momento da estreia, a OranjeBTC informou ter algo em torno de 3.650 BTC em caixa. Ou seja, algo em torno de R$ 2,4 bilhões. O caso se soma ao precedente criado pela Méliuz (CASH3).
Esse ano a empresa oficializou a estratégia de ter Bitcoin como principal ativo de tesouraria e fez captações em bolsa para comprar cripto. Colocando, assim, o Brasil no mapa das chamadas Bitcoin Treasury Companies.
Quem é a OranjeBTC e qual o seu plano para o Brasil
A OranjeBTC foi concebida para funcionar como uma holding de tesouraria de Bitcoin com capital aberto. Oferecendo ao investidor brasileiro um proxy de exposição ao ativo por meio de ações. Sendo, então, uma alternativa a quem não quer, não pode ou não sabe custodiar cripto diretamente.
A comunicação da empresa ao mercado enfatiza sua missão educacional e a ambição de acelerar a transição para o Padrão Bitcoin. Algo reiterado pelo fundador e CEO Guilherme Gomes, que tem passagem por Bridgewater e Swan Bitcoin.
A narrativa, claramente bitcoin-first, se apoia em reservas que, na largada, colocam a Oranje entre os maiores detentores corporativos de BTC na América Latina. Além disso, a listagem em equity tende a ampliar a base de acesso a Bitcoin. Inclusive via carteiras de ações, dos ETFs já existentes e das compras diretas em exchanges.
O Brasil amadureceu o arcabouço regulatório de cripto nos últimos dois anos, com a Lei 14.478/2022, o Decreto 11.563/2023 e com o Banco Central à frente da supervisão de VASPs. Ainda que a OranjeBTC não seja uma VASP, a institucionalização do tema no país reduz incertezas sistêmicas percebidas por investidores.
Do IPO reverso ao pregão: A engenharia da listagem
A escolha pelo IPO reverso encurta prazos e custos de uma abertura de capital tradicional. Em vez de um roadshow e bookbuilding convencionais, a empresa privada incorpora uma companhia já listada. Muda denominação social e ticker e, a partir daí, coloca sua tese no mercado.
No caso da OranjeBTC, a etapa societária determinante foi a aprovação, pelos acionistas do Integraus, da incorporação da Oranje. Passo esse que habilitou o novo ticker OBTC3 no sistema da B3. O procedimento é comum em ciclos em que empresas desejam estrear já listadas para aproveitar janelas de mercado.
Sendo assim, a implicação prática é que o free float e a liquidez inicial podem ser mais estreitos do que em IPOs tradicionais. Algo a ser observado nos próximos pregões, em conjunto com a sensibilidade do papel ao preço do BTC no spot.
O fenômeno das empresas que mantêm BTC em tesouraria, no entanto, não é novo. Ganhou tração desde 2020, com a antiga MicroStrategy (hoje Strategy) como referência de alocação agressiva. Hoje, dezenas de companhias listadas e governos detêm uma grande parte do free float de BTC.
Tese, riscos e contabilidade: O que olhar nos próximos trimestres
A tese pro-BTC em tesouraria parte de três premissas bem conhecidas. A primeira é a diversificação do caixa corporativo com um ativo de oferta previsível. A segunda é o potencial de assimetria de retorno em ciclos de alta. E a terceira é a visibilidade de marca junto a uma base cada vez maior de investidores cripto.
Em contrapartida, há riscos específicos. Por exemplo, a volatilidade contábil. A marcação do valor justo (fair value) de ativos cripto faz com que ganhos e perdas não realizados apareçam no resultado e no patrimônio a cada trimestre, elevando a oscilação dos números contábeis.
Isso exige leitura atenta das notas explicativas para separar desempenho operacional do efeito-preço de BTC. Há também o risco de proxy de BTC. Conforme a exposição aumenta, a ação tende a se comportar como um derivado do preço do Bitcoin, com betas altos.
Para parte do mercado, isso pode distorcer fundamentos e dificultar a avaliação por múltiplos tradicionais. E, por fim, a liquidez e governança. Nos estágios iniciais pós-listagem por IPO reverso, a liquidez do papel e a clareza da política de alocação (periodicidade de compras, critérios de preço) tornam-se linhas-mestras para avaliar execução.
No agregado, é um experimento de mercado. Compõe a vitrine de alternativas brasileiras de exposição a BTC, como ações de tesouraria, ETFs e compra direta, mas exige nível de diligência compatível com a natureza altamente volátil do ativo subjacente.
