Portugal aparece em 20ª posição de milionários por criptomoedas
A nova edição do Crypto Wealth Report 2025, da Henley & Partners, estima 241,7 mil milionários cripto no mundo. Um salto de 40% num ano, com 450 centi-milionários e 36 bilionários. Portugal figura em vigésimo lugar.
Nesse passo, Portugal figura em dois planos. Já que o país mantém-se no top 20 de adoção, mas perdeu atratividade para captar estes investidores. Isso se deve as novas políticas de enquadramento português.
O país estreitou o enquadramento fiscal, ao mesmo tempo em que programas de residência foram reformulados. Assim, Portugal ainda é relevante no mapa cripto, mas entra em competição direta com países com maior previsibilidade fiscal.
O mapa da nova riqueza digital
O relatório da Henley quantifica a massa crítica de detentores de grandes carteiras de cripto. Além de descrever o que estes perfis procuram, a estabilidade regulatória, vias de residência claras e regras fiscais previsíveis sobre mais-valias e rendimentos associados.
Em 2025, a contagem global de milionários cripto chega aos referidos 241,7 mil. Tudo isso, impulsionado pela maturidade do mercado e pela sofisticação dos veículos de investimento. Com a mobilidade elevada, as escolhas de residência são influenciadas por enquadramentos legais e tributários.
No plano da adoção, Portugal aparece no 20.º lugar do Global Crypto Adoption Index 2025 da Chainalysis, com o ranking ajustado por população. Um dos pontos de viragem foi a revogação do regime dos Residentes Não Habituais (RNH/NHR) no Orçamento do Estado para 2024.
Em substituição, surgiu o IFICI — Incentivo Fiscal à Investigação Científica e Inovação. Com taxa de 20% para rendimentos de trabalho (categorias A e B) em atividades qualificadas e regras mais estreitas de elegibilidade, regulamentado pela Portaria n.º 352/2024/1, de 23 de dezembro.
Dessa forma, Portugal deixou de oferecer o pacote amplo, passando a mensagem para o investidor cripto de que há previsibilidade e enquadramento formal. Por meio de portarias e despachos a operacionalizar o IFICI. No entanto, a porta está menos aberta a perfis generalistas de alto rendimento.
Reconfiguração de vistos e residência
O programa de ARI, os Vistos Gold, sofreu mudanças estruturais no pacote Mais Habitação (Lei n.º 56/2023). Com a consequente retirada das vias imobiliárias e de transferência de capital e o reforço de opções ligadas a investimento produtivo, cultural e fundos qualificados.
Para quem, no passado, ligava património cripto a aquisição imobiliária, a via tornou-se mais estreita e seletiva. No plano do IRS, desde 2023 Portugal tributa mais-valias de cripto detidas por menos de 365 dias à taxa especial de 28% (com opção de englobamento). Enquanto ganhos em ativos detidos por 365 dias ou mais estão isentos.
Rendimentos de staking ou juros qualificam, regra geral, como Categoria E (28%). Este enquadramento afasta o país do rótulo de zero taxa de curto prazo e aproxima-o de modelos europeus com tributação de ganhos especulativos.
Assim, para HNWI cripto, a leitura é dupla, pois, a clareza e vigilância reduzem o risco de reputação e de contraparte. Por outro lado, processos de compliance mais exigentes podem alongar timings de onboarding em serviços financeiros e de residência.
Tudo isso, leva alguns a comparar Portugal com hubs que aceitam prazos e garantias diferentes. Consequentemente, fazendo com que a busca por moradia no país reduza. Isso se deve, em grande parte, pela revogação do NHR e a reconfiguração dos Vistos Gold retiraram a facilitação de entrada de património estrangeiro.
Sinais a acompanhar em 2026
Nessa esteira, debate sobre ajustes ao IFICI e eventuais vias complementares de residência para talento e investimento qualificado vai persistir. A aplicação plena do MiCA deve clarificar aspetos operacionais para prestadores e investidores.
Em paralelo, a competição internacional por património cripto tende a intensificar-se, com alguns programas a aceitar cripto como meio de pagamento em cenários muito específicos, ainda que a adoção prática seja limitada por questões de compliance e volatilidade.
Para Portugal, o desafio é simples de enunciar e complexo de executar: conciliar proteção do consumidor e integridade financeira com atratividade suficiente para que uma parte dos 241,7 mil milionários cripto escolha o país como base.