BRICS acelera pagamentos digitais: dólar segue como referência nas trocas

O avanço de arranjos de pagamento digitais entre países do BRICS recolocou na mesa a ideia de reduzir a dependência do sistema bancário correspondente e de mensagerias como o SWIFT.

Mapa-múndi com símbolo do dólar ao centro, nós de “stablecoin”, bandeira do Brasil e ícones de países asiáticos conectados a um smartphone — ilustrando integrações de pagamentos digitais no BRICS com o USD como referência.

Isso foi discutido no 2º Fórum BRICS de Valores Tradicionais, em Brasília. Especialistas defenderam que a rota mais pragmática, no curto prazo, passa por sistemas integrados que usem stablecoins. Ou seja, criptoativos atrelados a moedas fiduciárias, majoritariamente o dólar.

A avaliação é que a unidade de conta global permanece o USD, mesmo quando a liquidação ocorre por meios alternativos. A discussão foi organizada pela Frente Parlamentar do BRICS e pela Aliança de Mulheres do BRICS, com ênfase em soluções de pagamentos e integração tecnológica.

Nos painéis, ganhou espaço a tese de que stablecoins lastreadas em dólar oferecem liquidez, previsibilidade cambial. Além de compatibilidade com práticas contábeis internacionais, sem a fricção regulatória de uma moeda única do BRICS. Em Brasília, especialistas compararam esse arranjo ao uso de dólares tokenizados.

Isso, para precificar contratos e fechar câmbio com menos atritos, preservando o USD como referência, enquanto a liquidação deixa de depender do circuito tradicional. A posição ecoa declarações registradas pela Câmara dos Deputados, que enfatizaram a preferência por stablecoins em vez de um experimento de moeda comum do bloco.

Brasil em 2025

No Brasil, a digitalização já é realidade para pagamentos domésticos com o Pix, infraestrutura pública do Banco Central (BCB) que bateu sucessivos recordes neste ano. Em 6 de junho, por exemplo, 276,7 milhões de transferências foram liquidadas em um único dia.

Em setembro, o patamar chegou a 290 milhões, com R$ 164,8 bilhões movimentados, segundo o BCB. Esses números ilustram o grau de maturidade operacional necessário para que soluções de liquidação instantânea ganhem espaço também no comércio exterior.

Em paralelo, o Drex, a versão brasileira de moeda digital de banco central (CBDC). Segue em fase piloto, com foco em testar privacidade, contratos inteligentes e tokenização de ativos para operações atacadistas.

A documentação oficial do BCB indica o uso do Drex como camada de liquidação de serviços financeiros tokenizados. No Congresso, há debates sobre ajustes legais para suportar casos de uso de garantias e automação contratual.

No front externo, o acordo Brasil–China para transações em moedas locais, abriu espaço para liquidações diretas em real e yuan. Com isso, reduzindo custos cambiais em operações selecionadas. Essa trilha bilateral, porém, não elimina a utilidade do dólar como referência de preço, contratos continuam frequentemente indexados em USD.

Por que o dólar permanece como âncora

Em comércio internacional, poder de rede e profundidade de mercado favorecem o dólar. Commodities, fretes, seguros e estruturas de hedge continuam amplamente precificados em USD, o que empurra tesourarias a manter contabilidade e gestão de risco nessa unidade.

Isso ocorre mesmo quando o pagamento final não transita por bancos correspondentes. Assim, o uso de stablecoins USD em liquidação B2B apenas reforça essa dinâmica, ao transferir a liquidez do mercado de dólares para o ambiente tokenizado.

Nesse passo, para companhias brasileiras que operam com margens apertadas e prazos curtos, liquidação em stablecoin pode reduzir custos operacionais e de reconciliação. Principalmente quando comparada a transferências internacionais tradicionais.

Na prática, o tomador avalia três variáveis. Sendo, o custo total de tarifas mais spread, o prazo de liquidação e o risco cambial residual na demonstração financeira. Risco que, em geral, continua referenciado ao dólar.

Dessa maneira, para o Brasil, uma agenda de interoperabilidade entre Pix, Drex no atacado e plataformas internacionais tende a ser o caminho de menor fricção. A governança do Pix e a abertura de dados do BCB seguem como ativos institucionais.

Esses elementos domésticos ajudam a explicar por que, mesmo com debates geopolíticos, o Brasil mantém foco em eficiência sem romper com a contabilidade em USD que ancora o comércio global.

Visões políticas e o debate sobre não ser refém do dólar

A dimensão política também apareceu no fórum em Brasília, com parlamentares defendendo maior autonomia financeira do BRICS. E em alguns casos, a criação de moeda própria do bloco. No entanto, o contraponto, levantado por especialistas, é que soberania operacional não exige uma moeda única.

Dessa maneira, moedas locais, CBDCs atacadistas e stablecoins podem coexistir. Desde que o arranjo preserve segurança jurídica e compatibilidade regulatória com parceiros comerciais. Enquanto isso, o dólar segue como denominação dominante, o que, para economistas no evento, reflete consenso de mercado e não mera preferência ideológica.

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Vinícius Alencar

Desenvolvedor e escritor

Sobre o autor

Vinícius Alencar é um escritor técnico que traduz o mercado cripto para a prática do dia a dia. Autodidata e mão na massa, ele testa wallets, exchanges, dApps, layer-2 e ferramentas de segurança em diferentes dispositivos e cenários reais.