PBoC inaugura centro operacional do e-CNY em Xangai e mira integração internacional da moeda digital
O Banco Popular da China (PBoC) inaugurou em Xangai um centro internacional de operações do e-CNY, o yuan digital.
O acontecimento, descrito pela autoridade monetária como parte de uma inevitabilidade histórica na modernização dos pagamentos, busca ampliar a eficiência de liquidação. Assim como abrir caminho para casos de uso transfronteiriços e reforçar a presença global da moeda chinesa em um ambiente de finanças cada vez mais digital.
Ou seja, o hub concentrará plataformas de pagamentos internacionais, serviços de blockchain e ativos digitais, além de iniciativas voltadas à integração do e-CNY a bancos e empresas estrangeiras.
O que muda com um hub internacional do e-CNY
Diferentemente das fases de testes domésticos do e-CNY, o centro em Xangai foi concebido para acelerar a adoção da moeda digital chinesa fora das fronteiras, oferecendo uma infraestrutura dedicada à compensação e à liquidação em tempo quase real.
Em termos práticos, isso significa encurtar ciclos de pagamento, reduzir fricções de compliance por meio de trilhas auditáveis e criar alternativas técnicas ao uso de redes tradicionais que concentram governança no Ocidente.
As declarações públicas do PBoC alinham a novidade a um desenho de sistema de pagamentos mais multipolar. Objetivo que ganhou visibilidade após o pacote de medidas anunciado no Fórum de Lujiazui, em junho, quando autoridades chinesas prometeram expandir o alcance do e-CNY e incentivar integrações com o comércio exterior.
Além disso, a leitura do anúncio também dialoga com a trajetória atual da China. Enquanto autoridades apertaram o passo sobre tokenização de ativos no varejo de Hong Kong, o vetor CBDC no atacado e pagamentos recebeu prioridade.
Com foco explícito em liquidação eficiente e em governança estatal da infraestrutura. Ao colocar o centro em operação, Pequim sinaliza onde pretende concentrar energia regulatória e técnica nos próximos trimestres.
Por que isto importa para Macau e Timor-Leste
Macau é ponte oficial entre a China e os países de língua portuguesa (Forum Macao) e alberga eventos que aproximam empresários lusófonos do mercado chinês. A edição de 2025 da C-PLPEX, de 22 a 25 de outubro, reforça esse papel. Com foco em agricultura, novas energias e blue economy, e metas explícitas de ampliar investimento sino-lusófono.
No plano financeiro, Macau dispõe de infraestrutura favorável à liquidação em RMB. O Bank of China é banco de compensação de renminbi desde 2004, sob supervisão da AMCM, e a pataca (MOP) mantém paridade estável com o dólar de Hong Kong. Isto facilita a integração de fluxos RMB e reduz atritos cambiais em operações com o Interior da China.
Timor-Leste, por sua vez, utiliza o dólar dos EUA como moeda oficial, mas vem a modernizar pagamentos e a aproximar-se de redes chinesas. O BNCTL lançou cartões UnionPay em 2024 com aceitação internacional. E o Banco Central (BCTL) firmou em julho de 2025 uma parceria para acelerar a estratégia nacional de pagamentos digitais e preparar terreno para CBDC.
Para um mercado pequeno e altamente dolarizado, reduzir etapas de conversão e prazos de liquidação em operações com a China pode ter impacto direto no custo total das transações. Com o centro internacional do e-CNY agora operativo em Xangai, a ambição declarada de Pequim é ampliar o uso internacional do renminbi.
Mas também apoiar a liquidação transfronteiriça quase em tempo real. Para Macau e para Timor-Leste, isto abre espaço para pilotos com menor fricção operacional.
Pagamentos e infra-estruturas digitais locais
Além do ecossistema de cartões e do RMB clearing, a AMCM opera o Easy Transfer (FPS local) para transferências interbancárias 24/7 em MOP. O MPay, Macau Pass, expandiu serviços e uso transfronteiriço através do Alipay+, com forte crescimento em 2024.
A região vizinha de Hong Kong já permite a utilização do e-CNY no retalho local. Sinal de maturação do Grande Baía para casos de uso transfronteiriços, cenário tecnicamente relevante para Macau. O BCTL, por outro lado, tem promovido inclusão financeira e a digitalização do sistema de pagamentos.
Além dos cartões UnionPay via BNCTL, o país inaugurou em 2022 o Porto de Águas Profundas da Baía de Tibar, ampliando a capacidade logística. Componente essencial para ligar comércio físico a liquidações digitais mais rápidas com a China.
O centro de Xangai deve concentrar casos de comércio exterior, serviços financeiros e cadeias de abastecimento liquidadas em e-CNY. Em paralelo, o mBridge atingiu estágio de MVP em 2024, testando liquidação multi-CBDC com foco em tempo real, interoperabilidade e conformidade.
Quem oferecer menor custo total de integração, mensagens padronizadas e SLAs claros tende a captar volume primeiro. Ponto sensível para PME timorenses e operadores logísticos e turísticos em Macau. Porém, a adoção não depende só de tecnologia.
Controlo de capitais, convertibilidade do RMB, regras de PLD e FT e sanções moldam o ritmo. Em 2024 e 2025, autoridades chinesas voltaram a defender um sistema de pagamentos mais multipolar e anunciaram reforço do CIPS e do e-CNY. Com passos concretos como o centro internacional de Xangai.
Em resumo, para Macau e Timor-Leste, o benefício prático aparece quando faturação, câmbio e liquidação forem executados num só fluxo, com trilhas auditáveis e reconciliação simplificada.