China aciona alerta máximo contra criptomoedas enquanto Hong Kong abraça stablecoins reguladas
A disputa em torno das criptomoedas na Ásia entrou em uma nova fase. De um lado, a China continental insiste em banir moedas digitais privadas e reforçar o controle de capitais. Por outro lado, Hong Kong aposta em uma regulação rígida para atrair emissores de stablecoins e investidores globais.
Além disso, outros centros financeiros asiáticos, como Singapura, Japão e Coreia do Sul, ajustam suas regras quase todos os anos. Nesse cenário, a ofensiva recente do Banco Popular da China (PBoC) contra stablecoins tornou-se um símbolo da disputa por poder financeiro e tecnológico na região.
PBoC volta ao modo de combate: cripto na mira
Quatro anos depois de proibir as transações com criptoativos, o PBoC voltou claramente ao modo de combate. Em 29 de novembro de 2025, depois de reunir reguladores em Pequim, o banco emitiu um novo alerta máximo sobre a reaparição de atividades especulativas com moedas virtuais, com foco direto nas stablecoins.
Além disso, no mesmo comunicado, a autoridade reforçou que pretende intensificar a coordenação com outros órgãos de fiscalização. No texto oficial, o PBoC reafirmou que as criptomoedas não têm status de moeda de curso legal na China. Por isso, qualquer operação com esses ativos continua classificada como atividade financeira ilegal.
Essa postura, portanto, repete e fortalece a diretriz de 2021 registrada pela Library of Congress, que já enquadrava negociação e mineração de cripto como práticas a serem prevenidas e eliminadas para reduzir riscos especulativos. Agora, porém, o alvo principal são as stablecoins lastreadas em moedas fiduciárias, como o dólar.
De acordo com o PBoC, esses tokens não cumprem requisitos básicos de identificação de clientes e de combate à lavagem de dinheiro. Assim, na visão da autoridade, eles facilitam fraudes, captação irregular de recursos e evasão de capitais.
Além disso, o uso de stablecoins para driblar controles cambiais e mascarar fluxos entre plataformas off-shore é um dos riscos centrais. Na prática, entretanto, o banimento encontra limites.
Dessa forma, mesmo com a retórica endurecida, um ecossistema paralelo continua ativo. Investidores domésticos ainda convertem yuan em cripto por meio de plataformas estrangeiras.
Hong Kong transforma risco em oportunidade
Enquanto a China continental reforça proibições, Hong Kong escolhe a via da regulação como estratégia de competitividade. Em maio de 2025, o Conselho Legislativo aprovou a Stablecoins Ordinance, criando um regime de licenças para emissores de stablecoins referenciadas em moedas fiduciárias.
Além disso, o governo local apresentou o pacote como parte de um plano mais amplo para reposicionar a cidade como hub cripto regulado. Qualquer entidade que queira emitir uma stablecoin lastreada em dólares de Hong Kong, ou usar o HKD como referência em outros mercados, precisa de autorização da HKMA (Hong Kong Monetary Authority).
Em julho de 2025, a HKMA publicou diretrizes sobre reservas, resgates, capital mínimo e governança. Desde 1.º de agosto, portanto, a emissão de stablecoins tornou-se formalmente uma atividade regulada que exige licença específica.
Esse regime soma-se às regras para plataformas de negociação de ativos virtuais, em vigor desde 2023 e supervisionadas pela SFC (Securities and Futures Commission). Comunicados da SFC indicam que alguns exchanges já têm licença para oferecer Bitcoin e Ethereum ao público.
Além dos primeiros ETFs spot de cripto na Ásia. Dessa maneira, a cidade tenta se firmar como porta de entrada regulada para capital global. A mensagem é clara: em vez de empurrar o mercado para a clandestinidade, Hong Kong procura trazer as operações para um ambiente de KYC rigoroso, relatórios de risco e regras de conduta.
Não por acaso, grandes bancos e empresas de Web3 estudam emissões de stablecoins locais a partir da cidade, incluindo propostas lastreadas em dólar de Hong Kong em parceria com instituições como o Standard Chartered.
Efeito dominó na Ásia
O reposicionamento de China e Hong Kong ocorre em paralelo a um endurecimento mais amplo. Na Coreia do Sul, por exemplo, o Act on the Protection of Virtual Asset Users, em vigor desde 2024, criou regras específicas para plataformas de cripto e ampliou os poderes da FSC (Financial Services Commission), com exigências de segregação de ativos e mecanismos de compensação descritos.
Singapura segue linha semelhante, mas com foco explícito no varejo. Em 2023, a MAS (Monetary Authority of Singapore) anunciou medidas que proíbem o uso de cartões de crédito locais para comprar cripto, impõem salvaguardas adicionais de custódia e limitam alavancagem e bônus promocionais.
No Japão, a FSA (Financial Services Agency) atualizou, em 2023, a Payment Services Act para incluir regras específicas para cripto e stablecoins. Relatórios do Crypto Council for Innovation apontam que as mudanças reforçam exigências de registro, governança e reservas, alinhando o país a padrões do G20.
Para o usuário asiático, portanto, o resultado é um mosaico regulatório em rápida evolução. Hong Kong, Singapura e Japão tentam integrar cripto à modernização financeira, enquanto a China continental aposta na moeda digital de banco central (e-CNY), em controles rígidos de capitais e em repressão às cripto privadas.