Bitmain dá acesso privilegiado a empresa cripto ligada a Eric Trump

A fabricante chinesa de máquinas de mineração de Bitcoin Bitmain concedeu condições incomuns a uma operação de mineração parcialmente detida por Eric Trump, a American Bitcoin Corporation.

Executivo em terno diante de rigs Bitmain e gráfico, simbolizando mineração de Bitcoin e tensões China–EUA.

Registos na SEC e relatos de fontes do sector mostram que o acordo inclui aquisição de mais de 16 mil equipamentos de última geração com pagamento em bitcoin. Além de um prazo de resgate de até 24 meses, algo apontado como fora do padrão publicamente anunciado pela própria fabricante.

O caso, revelado em meados de outubro, reacendeu em Washington a discussão sobre potenciais riscos de segurança nacional associados a fornecedores chineses de tecnologia crítica para a mineração. Ao mesmo tempo, levanta perguntas sobre influência política num momento de rivalidade tecnológica entre EUA e China.

Os termos com a American Bitcoin

De acordo com documentos, a American Bitcoin celebrou um acordo de fornecimento com a Bitmain que permite pagar máquinas com BTC colocados em garantia. Após, é possível recomprá-los a um preço fixado, dentro de um horizonte de 24 meses.

A nuance é relevante porque, num comunicado de maio, a própria Bitmain havia indicado ao mercado uma janela de apenas seis meses para operações similares com bitcoin caucionado. Assim, a discrepância sustenta a leitura de que a operação ligada a Eric Trump recebeu acesso e financiamento preferenciais.

A excepcionalidade dos termos não passou despercebida no Congresso. Em setembro, o deputado Zach Nunn remeteu carta ao Departamento do Tesouro pedindo revisão de atividades da Bitmain e de outra fornecedora chinesa. Para isso, apontou riscos para infra-estrutura energética e soberania tecnológica dos EUA.

Por que isso importa a Macau?

A Autoridade Monetária de Macau (AMCM) mantém, desde 2014, a orientação de que o Bitcoin não é moeda legal no território e alerta para riscos de branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo associados à negociação de bens virtuais.

Em paralelo, o Governo da RAEM acelerou o desenho do e-MOP, a pataca digital. Em 2024, já havia base legal para emissão de moeda em formato digital. Somado a isso, em 2025 autoridades de Macau reiteraram a ambição de usar moeda digital local nas trocas com países lusófonos.

No entanto, até o momento não políticas de incentivo de uso. A perda por tal fator, observa-se na necessidade de recepcionar turistas com qualquer modalidade de pagamento. Um exemplo disso, observa-se na entrada elevada de turistas nos primeiros três trimestres de 2025. Assim, as entradas de turistas somaram 29,67 milhões.

Isso é mais de 14,5% em termos homólogos, reforçando a importância de infra-estruturas digitais e de pagamentos para o comércio e o turismo. Dessa forma, especialistas apontam que diante da ausência de um enquadramento claro para ativos digitais privados tende a empurrar a actividade para a informalidade.

Dessa maneira, o caso Bitmain–American Bitcoin, pode interessar a Macau. O sistema funciona como crédito colateralizado: o fornecedor recebe BTC como garantia e concede um prazo estendido para que o comprador resgate esse BTC, pagando em dinheiro e mantendo as máquinas.

No entanto, a vantagem competitiva obtida pelo minerador ligado a Eric Trump é um lembrete de que condições de financiamento atípicas podem ter efeitos de mercado e implicações reputacionais transfronteiriças.

Pagamentos digitais em Macau

Enquanto a esfera de cripto privado vive ciclos de apetite e regulação, Macau acelera a via pública dos pagamentos digitais. O protótipo do e-MOP prepara-se para testes, com hipótese de interligação com projetos vizinhos (e-CNY e e-HKD). Em paralelo, a AMCM continua a publicar boletins monetários e orientações prudenciais para o sistema financeiro.

O mosaico regional inclui Hong Kong, que aprovou em 2025 um regime para stablecoins referenciadas a moeda com requisitos de reservas, governança e AML/CFT. Para o público de Macau, isto significa que a inovação de pagamentos avança, mas a natureza jurídica e o risco de e-MOP e de stablecoins/cripto são distintos.

Dessa maneira, como Macau procura atrair serviços financeiros, aprofundar a ponte sino-lusófona e lançar moeda digital própria, o episódio serve de estudo de caso sobre como termos comerciais e cadeias tecnológicas podem resvalar para o terreno político.

Foto de Vinícius Alencar

Vinícius Alencar

Desenvolvedor e escritor

Sobre o autor

Vinícius Alencar é um escritor técnico que traduz o mercado cripto para a prática do dia a dia. Autodidata e mão na massa, ele testa wallets, exchanges, dApps, layer-2 e ferramentas de segurança em diferentes dispositivos e cenários reais.