Espanha acelera instalação de Bitcoin ATMs: o que impacta no Brasil

A presença de caixas automáticos de criptomoedas, popularmente chamados de Bitcoin ATMs, ganhou tração em território espanhol na última década. Por sua vez, o Brasil se prepara para regulamentação de stablecoins.

Caixa automático de Bitcoin amarelo em rua de pedestres na Espanha, com prédios históricos ao fundo, ilustrando a expansão dos BTMs no país.

No entanto, enquanto a Espanha expandiu pontos físicos de compra e venda de cripto. O Brasil avança com ênfase em outra via. Ou seja, por meio de pagamentos instantâneos com Pix.

E, somente a passos lentos é que se prepara para estabelecer regras específicas para stablecoins. Por sua vez, a primeira máquina espanhola foi instalada em fevereiro de 2014, no Diagonal Mar. 

Da primeira máquina em Barcelona a uma rede nacional

A partir dali, a expansão foi contínua. Listagens atualizadas por cidades mostram hoje dezenas de equipamentos em Madri e Barcelona. Isso, além de destinos como Málaga, os quais impulsionam o comércio local.

Tal fator ajuda a explicar a aderência entre turistas e residentes. Enquanto isso, no Brasil há a regulação de prestadoras (VASPs) e a preparação de regras específicas para stablecoins em 2025. As criptomoedas ainda caminham a passos lentos no país.

Por sua vez, com o passo inovador, a Espanha figura como uma das maiores redes europeias de BTMs. Consequentemente disputando protagonismo com mercados como Polônia, Romênia e Áustria, que também exibem números robustos.

No plano regulatório, a União Europeia trouxe previsibilidade com a entrada plena do MiCA em 30 de dezembro de 2024. Estabelecendo regras para prestadores de serviços de criptoativos (CASPs).

Isso com regime transitório e padrões técnicos supervisionados pela ESMA. Na prática, isso ajuda operadores de BTMs a navegar exigências de autorização, governança e AML/KYC. Consequentemente, tornando mais claras as balizas de atuação sob os olhares do Banco da Espanha.

Bem como da CNMV e da unidade de inteligência financeira. Não elimina riscos de mercado, mas reduz incertezas regulatórias que muitas vezes freiam investimentos em infraestrutura.

Taxas, KYC e volatilidade: o que o usuário deve ponderar

A conveniência do caixa físico tem custo. Spreads e tarifas podem ser superiores aos de plataformas digitais e, se o usuário compra em janelas de alta volatilidade, a execução pode capturar preços piores do que a média do dia.

Além disso, políticas de identificação variam por operador e por máquina. Justamente por isso, o arcabouço europeu enfatiza controles de prevenção à lavagem de dinheiro e rastreabilidade de operações.

Em ambientes turísticos, a comodidade pesa. No entanto, não substitui a necessidade de comparar condições e entender como a máquina trata limites, identidade e recibos. Porém, todos fatores podem ser ajeitados. 

Ao lado da Espanha, Portugal mantém um mosaico modesto de BTMs distribuídos entre Lisboa, Porto, Faro e Funchal, entre outros. As leituras públicas, apontam poucos equipamentos ativos no país, bem abaixo da malha espanhola.

É um indicativo de que, no ecossistema lusófono, a escala operacional ainda se concentra do lado de lá da fronteira, onde a combinação de turismo, hubs de inovação e previsibilidade regulatória favoreceu o crescimento. 

Brasil: por que o mapa é outro 

No Brasil, a discussão caminha por trilhos diferentes. O Banco Central priorizou a autorização e a supervisão de VASPs, e direcionou o segundo bloco regulatório para stablecoins e tokenização em 2025.

Em apresentações oficiais e falas públicas, a autoridade monetária tem destacado que cerca de 90% do fluxo cripto no país está ligado a stablecoins, usadas sobretudo em pagamentos e operações dolarizadas, um padrão que explica a baixa demanda por caixas físicos de cripto por aqui.

Em fevereiro de 2025, o presidente do BC reforçou esse diagnóstico em evento do BIS; e, desde 2024, o órgão sinaliza que a regulação específica de stablecoins é prioridade do programa de 2025.

A pauta ganhou ainda mais ímpeto com declarações recentes de dirigentes do BC e a preparação de normas que tragam emissores e prestadores para dentro do perímetro regulatório.

Além do aspecto concorrencial, a motivação é prudencial e fiscal: mitigar assimetrias de informação, preservar a integridade do sistema e endereçar riscos de uso indevido. Para o leitor brasileiro, isso significa que a oferta tende a concentrar-se em canais digitais regulados, e não em caixas físicos.

A expansão espanhola joga luz sobre usos muito específicos em que o BTM faz sentido: conversão rápida de dinheiro físico em cripto (ou vice-versa), conveniência para viajantes e inclusão de perfis que preferem experiências presenciais. Para operadores, locais com tráfego de turistas e rotas comerciais parecem favorecer a adoção.

Para o Brasil, onde Pix e exchanges locais dominam a rampa de entrada, o aprendizado está menos no caixa e mais no ambiente regulatório claro: previsibilidade tende a reduzir custos de conformidade, fortalecer a competição e proteger o usuário, seja em caixas, seja nos app-based on-ramps.

Foto de Vinícius Alencar

Vinícius Alencar

Desenvolvedor e escritor

Sobre o autor

Vinícius Alencar é um escritor técnico que traduz o mercado cripto para a prática do dia a dia. Autodidata e mão na massa, ele testa wallets, exchanges, dApps, layer-2 e ferramentas de segurança em diferentes dispositivos e cenários reais.