Isenção de imposto de renda até R$ 5 mil pode aquecer cripto no Brasil
A Câmara dos Deputados aprovou o projeto que zera o Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil por mês e cria descontos decrescentes até R$ 7.350. O texto segue para o Senado e, se também for aprovado ainda em 2025 e sancionado, passa a valer a partir de janeiro de 2026.
Para os incluídos, o efeito aparece já no contracheque do fim de janeiro ao início de fevereiro de 2026. Segundo o governo federal, a medida deve aliviar a carga de até 10 milhões de brasileiros, o projeto também prevê um imposto mínimo para altas rendas como forma de compensação.
Pelo cronograma ventilado no Senado, a votação deve ocorrer entre outubro e novembro de 2025. O senador Renan Calheiros foi indicado relator. Em coletiva, o Ministério da Fazenda voltou a detalhar a proposta e os prazos de tramitação.
Mais renda líquida
Com menos IR retido na fonte, famílias com renda até R$ 5 mil passam a ter renda disponível maior. Parte desse excedente tende a ir para consumo, outra parte, para investimentos.
Em momentos de juros elevados, a renda fixa costuma capturar a maior fatia. Ainda assim, uma parcela do varejo pode buscar ativos de maior retorno esperado, como Bitcoin (BTC) e altcoins, especialmente quando a narrativa de diversificação volta ao radar.
Esse apetite adicional encontra um Brasil que já é protagonista em cripto. O país está em 5º lugar no Global Crypto Adoption Index 2025 e movimentou US$ 318,8 bilhões entre julho de 2024 e junho de 2025. Uma alta de ~110% em um ano, com stablecoins dominando mais de 90% dos fluxos.
Além disso, estudos de mercado locais indicam ganho de espaço das stablecoins no varejo brasileiro em 2025 (por exemplo, 35% das compras no semestre, segundo a Bitso). Um dado compatível com o diagnóstico do Banco Central, que tem alertado para o peso das stablecoins nos fluxos.
No entanto, a isenção de até R$ 5 mil reduz arrecadação e, como compensação, o governo encaminhou a MP 1.303/2025. Essa medida, unifica a tributação de diversos investimentos em 17,5% a partir de 2026.
No caso de cripto, o parecer em discussão acaba com a isenção atual de vendas mensais até R$ 35 mil e passa a tributar ganhos de pessoas físicas em 17,5% (alíquota única). Isso, além de prever um regime de regularização para ativos não declarados até dezembro de 2025, com alíquota de 7,5%. A MP ainda está em tramitação e pode sofrer ajustes no Congresso.
Como é hoje: regras vigentes
Atualmente, pessoas físicas têm isenção de IR sobre ganho de capital em vendas de cripto quando o total alienado no mês não supera R$ 35 mil. Isso é válido para a soma de todas as moedas e/ou tokens, no Brasil e no exterior.
Caso ultrapasse esse teto, o ganho é tributado pela tabela de ganho de capital (15% a 22,5%, conforme o montante). A apuração é mensal e o pagamento do DARF ocorre até o último dia útil do mês seguinte.
Além do imposto sobre ganho de capital, existe a obrigação acessória de informar operações com criptoativos ao fisco. Como preceitua os termos da Instrução Normativa RFB 1.888/2019, até 23h59:59 do último dia útil do mês seguinte ao das operações.
Com isso, essa regra alcança exchanges domiciliadas no Brasil e, para pessoas físicas que operam fora de exchanges brasileiras, impõe reporte sempre que o total mensal movimentado ultrapassar R$ 30 mil. O envio é feito via e-CAC (Coleta Nacional).
Dessa forma, a discussão sobre migração de renda disponível para cripto também depende do custo de oportunidade. Em setembro de 2025, o Copom manteve a Selic em 15% a.a., indicando que pretende mantê-la elevada por um período prolongado enquanto a inflação converge para a meta.
Onde o Brasil está no mapa cripto
Dessa forma, o retrato mais recente coloca o Brasil no top 5 global de adoção de cripto. Consequentemente, com um crescimento robusto de volume e, principalmente, predominância de stablecoins (caso de USDT). Em relatórios e falas públicas, o Banco Central tem destacado que cerca de 90% dos fluxos locais de cripto envolvem stablecoins.
Inclusive em remessas e operações dolarizadas — uso que o BC pretende regulamentar de forma mais específica no eixo de cripto e tokenização em 2025, em paralelo ao Drex (real digital).
Isso significa que qualquer ganho de renda líquida no varejo, como o que viria da isenção, tende a encontrar canais prontos para a entrada de novos investidores ou para o aumento de tíquete médio dos já ativos. Principalmente em produtos de entrada barata, como altcoins, exposição tática a BTC/ETH e stablecoins como estacionamento de caixa.