Tarifaço dos EUA derruba exportações de madeira do RS
O choque tarifário imposto pelos Estados Unidos às exportações brasileiras, anunciado em 9 de julho e vigente a partir de 6 de agosto de 2025, mudou o dia a dia da indústria madeireira gaúcha.
Nas semanas seguintes à entrada em vigor da tarifa, empresas reportaram queda simultânea de volumes embarcados e preços médios. Basicamente, um padrão típico quando compradores tentam renegociar contratos ou substituem fornecedores.
Sul em vulnerabilidade
A sobretaxa de 50% encareceu imediatamente o produto brasileiro, reduziu a competitividade e levou empresas a rever turnos. Além de cancelar contratos temporários e adiar investimentos. Isso tudo, em um setor que tem relação histórica e intensa com o mercado norte-americano.
A cadeia de madeira e derivados no RS é construída, há décadas, para atender padrões de consumo mais típicos dos EUA do que do mercado doméstico. Assim, entre os itens mais sensíveis estão cercas de pinus padrão americano. Da mesma maneira, que chapas compensadas muito mais ligadas à cultura habitacional norte-americana.
Doravante, esse encaixe produtivo, era eficiente quando o dólar impulsionava a demanda americana. No entanto, torna-se fragilidade quando a tarifa sobe. Isso fez com que, entidades empresariais do estado promovessem uma análise da dependência do mercado dos EUA para os segmentos de madeira e móveis.
Em julho, já havia sinais de corrida para antecipar embarques. Em agosto, houve retração de volumes e de preços, bem como, cancelamentos e adiamentos de ordens. A FIERGS e publicações especializadas vêm registrando essa virada, que se traduz em menor faturamento em dólares e em ajustes operacionais.
Emprego sob pressão
O efeito mais visível para as famílias é no mercado de trabalho. A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) contabilizou cerca de quatro mil demissões na indústria de madeira desde o anúncio do tarifaço até meados de setembro.
Além de milhares de trabalhadores em férias coletivas e programas de suspensão temporária de contratos. A entidade projeta que, mantido o cenário, novas dispensas podem ocorrer no curto prazo, com concentração de impactos na região Sul.
Da mesma maneira, a imprensa econômica e regional repercutiu os números e as projeções da Abimci, ilustrando a capilaridade social do choque tarifário. Sem dúvida não é muito difícil entender o cenário.
Por exemplo, a dificuldade de redirecionar a produção está no fato de empresas do norte gaúcho serem dedicadas a itens sob medida para os EUA, como as cercas de pinus padrão americano. Obviamente, um produto que praticamente não encontra demanda no Brasil, onde o padrão construtivo residencial privilegia alvenaria e muros.
Nesse caso, a súbita perda de competitividade, não abre portas em mercados alternativos. Mas sim, obriga a renegociar preços, redesenhar linhas e buscar nichos.
Assim, apesar do governo norte-americano publicar uma lista de quase 700 produtos brasileiros temporariamente excluídos do alcance imediato das tarifas, isso não trouxe alívio para o comércio.
A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda estimou que o impacto agregado do tarifaço dos EUA seria modesto para a economia como um todo, cerca de 0,2 ponto percentual do PIB até dezembro de 2026.
Porém, reconheceu que setores como madeira, papel, móveis e têxteis sofreriam de forma desproporcional, com pressões maiores sobre emprego e utilização de capacidade. No RS, onde a base industrial exportadora inclui uma fatia relevante de madeira e móveis orientada ao mercado americano, o choque se amplifica.
O que o poder público vem fazendo
O Governo Federal anunciou linhas de crédito, seguro e apoio à exportação para mitigar a travessia de setores atingidos, em paralelo a tratativas diplomáticas sobre listas de exceção e cronogramas.
A Agência Brasil acompanhou a entrada em vigor das tarifas e as reações subsequentes. Enquanto entidades como a FIERGS municiam o debate com levantamentos de exposição setorial, cenários e risco para a economia gaúcha.
A efetividade das medidas dependerá do fôlego financeiro das empresas e da velocidade de reabertura de canais comerciais. Algo que tende a ocorrer em meses, não em dias. Os próximos dados mensais de exportação por NCM dirão se houve estabilização em novos patamares ou se a queda se aprofunda.
Vale acompanhar, também, a evolução das exceções tarifárias e a capacidade de reposicionamento para mercados alternativos na América Latina, Europa e Oriente Médio. A readequação pode exigir mudança de desenho de produto, certificações e novos canais de distribuição. Uma agenda que, no melhor cenário, se mede em trimestres.