Mais de 200 portugueses perdem 10 mil euros em esquema internacional de criptomoedas

Um esquema internacional de investimentos falsos em criptoativos captou vítimas em vários países europeus e, em Portugal, deixou um rasto de mais de 200 lesados com perdas médias próximas de 10 mil euros por pessoa.

Smartphone com app cripto falsa; polícia, algemas e mapa da Europa ao fundo — burla cripto transfronteiriça investigada em Portugal.

O caso ganhou tração pública depois de operações policiais coordenadas a 23 de setembro de 2025. Quando, a Eurojust detalhou detenções e buscas transnacionais relacionadas com uma fraude que, desde 2018, teria lesado centenas de pessoas e movimentado pelo menos 100 milhões de euros.

Em Portugal, houve diligências e apreensões que ligam o circuito de dinheiro a contas abertas na Lituânia. Além de movimentos posteriores por diferentes jurisdições, precisamente para ocultar o destino final dos fundos.

Promessas de 5% a 10% e plataformas perfeitas

A isca começava com anúncios nas redes sociais e contactos não solicitados, quase sempre a prometer rentabilidades entre 5% e 10% num curto espaço de tempo. Com isso, os potenciais investidores eram encaminhados para websites criados de raiz para parecerem legítimos.

Após, era o momento do registo e abertura de contas que mostravam supostos ganhos em tempo real. Depois de um primeiro depósito, em alguns casos a partir de 250 euros, noutros entre quatro e cinco dígitos, a pressão aumentava por meio de provas de lucros visíveis no painel da plataforma.

Quando a vítima tentava resgatar, surgiam entraves. Tais quais, taxas de levantamento, pedidos de novos pagamentos para libertar fundos ou, simplesmente, o desaparecimento do contacto. O padrão era de retorno garantido, risco nulo e exigência de pagamentos adiantados.

Além, é claro, do uso intensivo de cripto para dificultar o rasto e uma narrativa de urgência que encurta a tomada de decisão informada. Em Portugal, a dimensão do impacto foi quantificada em peças de media que referem mais de 200 vítimas nacionais. Somado a isso, há perdas médias de cerca de 10 mil euros por pessoa.

Vale esclarecer que, as investigações remontam a 2018 e que a teia de vítimas incluía cidadãos na Alemanha, França, Itália e Espanha, entre outros. Em Portugal, as autoridades judiciais e policiais cooperaram com as congéneres europeias, com diligências realizadas no quadro dessa cooperação judiciária.

Assim, em 23 de setembro de 2025, a Eurojust divulgou o essencial da ação conjunta. Em consequência a ação foram cinco detidos, entre eles o alegado principal responsável. Para além disso, foram realizadas buscas simultâneas em vários países e o mapeamento de uma plataforma de investimento online.

Sinais de alerta e conselhos que já existem

Muito do que aconteceu neste caso coincide com as red flags que reguladores e polícia repetem há anos. Por exemplo, o Banco de Portugal alertou este verão para tentativas de fraude associadas à reativação de falsas carteiras de criptoativos.

O alerta avisava os consumidores para não efetuarem pagamentos com esse pretexto e para denunciarem de imediato contactos suspeitos. Dessa forma, a recomendação é clara, nunca pagar para desbloquear acessos. Bem como não instalar aplicações a partir de links recebidos por mensageria.

Por sua vez, s PSP, tem descrito com detalhe a coreografia típica. Primeiro, o ganho de confiança, depois a engorda com reforços de investimento e, por fim, o abate. Neste caso, a capa de legitimidade assentou em websites com certificados válidos, textos e imagens copiados de plataformas conhecidas e perfis falsos em redes sociais a replicar testemunhos.

Dito isso, o fator psicológico, urgência e escassez, fez o resto. Quando todos à volta parecem estar a ganhar, e o relógio corre contra nós, o impulso de não ficar de fora suplanta a prudência. Com isso, embora os pormenores processuais permaneçam sob segredo de justiça em vários países. 

Essencialmente, ficou claro que a operação fora bem realizada e logrou êxito em preservar prova e congelar ativos. Considerando que a operação funcionava desde 2018, já havia ficado claro que o tempo tinha sido a arma dos criminosos. Por isso, uma resposta coordenada fora necessária para derrubar essa vantagem.

Dessa forma, não é demais repassar os conselhos dos reguladores, confirmar quem contacta, desconfiar de retornos garantidos e avaliar a adequação do produto ao perfil de risco pessoal, antes de qualquer transferência.

O que fazer se já foi alvo

No entanto, se o dano já ocorreu, a prioridade é preservar evidência. Guardar comprovativos de transferências, IBANs, endereços de cripto, e-mails, números de telefone, capturas de ecrã de conversas e do dashboard da plataforma.

Assim, com esse material, a vítima deve apresentar queixa junto das autoridades competentes, Polícia Judiciária, PSP, Ministério Público. Além de reportar também ao banco e a eventuais plataformas de troca, sempre que exista interação bancária ou cripto.

O Banco de Portugal e a CMVM mantêm canais informativos para consumidores e investidores, com orientações sobre como proceder. Incluindo os cuidados a ter com contactos não solicitados e com entidades não autorizadas. O ponto crítico é não efetuar pagamentos adicionais exigidos para libertar fundos, pois isso prolonga a fraude.

Foto de Vinícius Alencar

Vinícius Alencar

Desenvolvedor e escritor

Sobre o autor

Vinícius Alencar é um escritor técnico que traduz o mercado cripto para a prática do dia a dia. Autodidata e mão na massa, ele testa wallets, exchanges, dApps, layer-2 e ferramentas de segurança em diferentes dispositivos e cenários reais.